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Esta obra constitui uma descrição muito detalhada e completa das estruturas de poder nos prazos, dos vários grupos sociais nesta sociedade de fronteira, das suas relações e atividades económicas (agricultura para consumo interno, exploração mineral e sobretudo comércio de vários géneros) e do delicado equilíbrio estabelecido, que viria a entrar em colapso no século XIX – não devido à abolição oficial dos prazos, mas sobretudo – segundo Isaacman – à intensificação do tráfico esclavagista, que pôs em prática as obrigações sociais implícitas, uma vez que os “prazeiros” passaram a exportar em grande quantidade tanto os seus dependentes até então livres como os escravos. Em obras e artigos posteriores, o Autor viria a debruçar-se sobre um grupo em específico dentro do sistema dos prazos – os achikunda , ou seja, os integrantes escravizados nos exércitos dos senhores dos prazos. A partir de origens distintas e unidos pela sua condição de escravos guerreiros, estes indivíduos forjaram uma identidade social e étnica distinta, com costumes e crenças novas, que sobreviveu ao colapso dos prazos e se manteve relevante no panorama político do sertão moçambicano. Outro tópico de grande interesse para este historiador foi a “tradição de resistência” em Moçambique. Este não é, evidentemente, um tema politicamente neutro, sobretudo no período anterior à independência do país. Isaacman coloca-se aberta e inequivocamente do “lado” da resistência e contra o imperialismo português, tanto enquanto este ainda vigorava em África como na fase seguinte. Num estudo publicado em 1976, mas já em desenvolvimento há vários anos, o americano procura retratar a resistência histórica ao poderio português, a partir de 1850, enfatizando a pluralidade das suas formas – não só a guerra aberta, mas também as revoltas camponesas, fuga aos impostos, emigração para outras áreas de África, bandidismo, etc. Não ignora também o fator sensível da colaboração de certos africanos com o poder colonial. Evita visões românticas da resistência, especialmente as focadas somente nos líderes e heróis guerreiros. Finalmente, procura determinar quais os atos de resistência que foram movidos apenas pela condição de um grupo social ou étnico em particular, e quais os que tinham um carácter mais universalista de libertação africana e moçambicana. Traça, efetivamente, aquilo que poderíamos descrever como uma genealogia da resistência, culminando na atividade da FRELIMO. |
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