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Quanto à costa oriental de África, o Autor insere os portugueses num esquema de oposição entre os povos agrários bantus e os povos “marítimos” mercantis, uma relação já iniciada com a presença dos mercadores árabes na costa de Zanzibar, mas muito acentuada pelos recém-chegados europeus. Tal como acontecera no caso congolês, a reorientação da economia para um foco comercial (centrado no ouro) e a constante interferência na política dinástica do Monomotapa por parte dos portugueses (que se assenhoreavam a título pessoal de partes do território do mesmo), aliadas a outros fatores de origem mais “indígena”, levaram ao colapso da ordem política vigente, sem – na visão de Randles – a substituírem de forma que trouxesse desenvolvimento à região. Efetivamente, descontando a realidade africanizada dos prazos, somente na Época Contemporânea foram implantados sistemas coloniais europeus efetivos. O outro campo de trabalho deste Autor, remontando sobretudo ao séc. XVI, prende-se com a história intelectual, das mentalidades e da ciência. Nomeadamente, escreve sobre as transformações no conhecimento científico e nas conceções do mundo na transição da Idade Média para a Era Moderna, resultantes, em parte dos “descobrimentos” dos navegadores europeus – a chegada ao continente americano e ao Oceano Índico em especial. Também nesta área têm os portugueses, naturalmente, um papel destacado, ou não fossem eles os primeiros europeus a navegar no hemisfério sul, dissipando as noções medievais sobre antípodas inalcançáveis. Interessa a Randles, por um lado, situar os navegadores e estudiosos quinhentistas numa tradição epistemológica complexa descendente de Aristóteles e Ptolomeu e, por outro, mostrar de que modo o conhecimento empírico que obtiveram cortou com essa mesma tradição e levou a novas noções sobre o globo, a geografia dos continentes, a natureza dos oceanos, etc., bem como à difusão de novas noções, misto de facto e ficção, sobre os povos habitantes das novas terras encontradas (nas Américas e em África), como o célebre “mito do bom selvagem”. Este era um tópico ao qual o historiador tinha já dedicado a sua tese de doutoramento, e ao qual regressaria em múltiplos livros e artigos ao longo das décadas. |
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