Seara Nova, revista de doutrina e crítica, Lisboa, 1921-1984 (1ª. Série)
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É igualmente relevante constatar, num sentido oposto, os apelos de reaproximação e os intuitos de apropriação dos valores e figuras do movimento fundador, dos quais a comemoração do cinquentenário da revista em 1971 é representativo. Alguns dos fundadores do movimento seareiro tinham-se convertido em figuras tutelares da oposição portuguesa, reconhecidos por intelectuais de diferentes filiações políticas e ideológicas, capazes, por isso, de simbolicamente representar a oposição democrática. As diferentes reorganizações por que passou a revista tiveram o movimento fundador e seus valores como referências a retomar. Em 1959, ano em que se iniciou uma renovação da Seara Nova, a sua direcção propõe-se “regressar à inteireza da campanha seareira”, nomeadamente à função pedagógica e de orientação da elite portuguesa. E dez anos depois, em balanço do trabalho realizado na última década, Augusto Abelaira, que sucedera a Rogério Fernandes como director da revista, retomava a referência à “tradição seareira” para medir o quanto ainda os separava, em termos de qualidade crítica e doutrinal, do núcleo fundador (n.º 1481, 1969, p. 116).
No número dedicado à celebração do seu cinquentenário, anunciavam-se os planos de publicação de uma antologia, inicialmente prevista para cinco volumes, a reedição dos escritos políticos de Raul Proença, um álbum com entrevistas a Jaime Cortesão, António Sérgio e Aquilino Ribeiro e ainda uma exposição itinerante que passaria em vários pontos do país. São frequentes nos anos 60 e 70 as referências aos fundadores e antigos colaboradores da revista – citações em epígrafe ou a comemoração de efemérides, de que é exemplo a capa de Setembro de 1964 a lembrar o centenário do nascimento do historiador Duarte Leite. Comemorações que, em consonância com os valores difundidos pelos fundadores, se desejaram também críticas. Como notava Piteira Santos, “a Seara negaria as suas responsabilidades de revista de doutrina e crítica, se consentisse que um cinquentenário comemorável servisse de pretexto para unificar, igualizar, confundir as diferentes e sucessivas Searas”. E questionava também o “espírito seareiro” fundador referido por António Sérgio: “A Seara que conheci […] não constituía um grupo político-cultural coeso e coerente. Tê-lo-ia sido algum dia? Não foram, também, seareiros, um Quirino de Jesus, um Ezequiel de Campos?” (n.º 1512, p. 15-16).