Pode considerar-se que os estudos musicológicos em Portugal se iniciaram em 1870, com a publicação de Os Musicos Portuguezes, de Joaquim Vasconcelos. Pela primeira vez se reunia numa mesma obra um vasto conjunto de informações biobibliográficas sobre os principais compositores nacionais desde a Idade Média, até então dispersas por fontes como a Bibliotheca Lusitana, de Barbosa Machado, a HistoriaGenealógica da Casa Real Portuguesa, de D. Camilo Caetano de Sousa, e outros clássicos da nossa historiografia geral, ou mesmo por obras de levantamento bibliográfico geral da musicologia internacional, como as de Forkel ou de Fétis. Neste seu trabalho, como nos que foi produzindo ao longo dos trinta anos seguintes, J. Vasconcelos propôs um modelo de historiografia musical tipicamente positivista, ligado a uma tentativa de leitura histórica de intuitos regeneradores em que o evocar dos períodos de apogeu da história da música portuguesa procurava expressamente estimular o desenvolvimento e a internacionalização da vida musical do país no seu tempo. Na viragem do século, a revista Arte Musical, da iniciativa de Michel’ Angelo Lambertini, proporcionou um espaço de publicação regular para as investigações de documentação da Torre do Tombo por Sousa Viterbo e dos arquivos musicais portugueses por Ernesto Vieira. Viterbo publicaria um enorme acervo de dados informativos extraídos de fontes primárias sobre os compositores e intérpretes portugueses dos séculos xv e xvii, baseando-se sobretudo nos diplomas das chancelarias régias e dos arquivos das ordens militares, sendo de destacar a publicação póstuma de Subsídios para a História da Música em Portugal (1932). Por sua vez, E. Vieira, com o seu Diccionario Biographico de Musicos Portuguezes (1900), foi o primeiro a fazer um esforço de abordagem analítica do património musical erudito, cruzando-o com o tratamento de um vasto manancial de informação extraída de fontes históricas e literárias. O mesmo E. Vieira, com o seu Dicionário Musical (1890) e os seus compêndios de teoria musical, e mais tarde Bernardo Valentim Moreira de Sá, com a sua História da Evolução Musical (1924), contribuem decisivamente para a fixação de um léxico musical português contemporâneo nos domínios da teoria musical e da história da música, respectivamente. Se estes primeiros esforços de investigação da música erudita portuguesa do passado foram encorajados pelas elites culturais cosmopolitas de Lisboa e do Porto, nem por isso a musicologia nascente conseguiu franquear as portas das instituições oficiais de ensino, ao contrário do que sucede um pouco por toda a Europa nesse mesmo período. A universidade portuguesa na viragem do século, anquilosada e arcaica, desconfiava de uma nova disciplina humanística de créditos científicos ainda pouco firmes e o Conservatório Nacional (CN) estava demasiado orientado para a formação vocacional de intérpretes para poder alargar a um domínio historiográfico e analítico alheio à sua tradição intelectual.