A proclamação da República e todo o processo político subsequente conduziriam ao agravar crescente de uma ruptura entre os sectores progressista e conservador da intelectualidade portuguesa, cujas origens remontam já às guerras liberais e que afectou também, indirectamente, a reflexão teórica sobre música em Portugal. Os sectores musicais mais avançados, centrados em torno de figuras como M. Lambertini, José Viana da Mota, B. Moreira de Sá ou Alfredo Pinto, estavam sobretudo interessados na reforma e modernização da vida musical portuguesa, abrangendo áreas como a criação, a interpretação e a formação, pelo que ao nível teórico privilegiavam o ensaísmo nos planos da crítica e da estética contemporânea. Por sua vez, o próprio contexto intelectual dominante, marcadamente republicano e jacobino, não era de molde a encorajar especial interesse por uma investigação histórico-musical que remetia predominantemente para um património associado à memória das instituições monárquicas e eclesiásticas do Antigo Regime. Deste modo, a musicologia histórica, propriamente dita, não foi de modo algum uma preocupação marcante dos principais musicógrafos portugueses de pendor cosmopolita e progressista durante mais de meio século. D. Luís de Freitas Branco a Fernando Lopes-Graça e deste a João de Freitas Branco, todos abordaram as questões histórico-musicais sobretudo numa perspectiva de tratamento ensaístico, desligado da investigação original de arquivo e sempre numa óptica preferencial de recaída imediata na problemática da música contemporânea. Muitas das páginas de reflexão historiográfica que assim nos deixaram são de uma lucidez profunda, como sucede com as observações de F. Lopes-Graça sobre a necessidade de um espectro sociocultural alargado na avaliação da nossa vida musical do século xix ou com a riqueza da leitura problematizante que J. de F. Branco faz da sequência da história da música portuguesa na perspectiva dos grandes movimentos musicais europeus em que ela se vai integrando ao longo dos séculos ( História da Música Portuguesa, 1959). Mas ressentem-se, naturalmente, da escassez de material original de arquivo ainda disponível, quer no plano dos dados de carácter histórico individual e institucional quer no que respeita ao acesso às partituras, o que não poderia deixar de levar por vezes estes autores a generalizações e juízos necessariamente apriorísticos e voluntaristas. Neste contexto, a investigação histórica original sobre a música portuguesa surgiu até à década de 60 sobretudo de autores de conotações ideológicas conservadoras, muitos deles inspirados pelo ideário do Integralismo Lusitano. Menos interessados na problemática da vida musical contemporânea, estes privilegiavam claramente a abordagem do nosso património musical polifónico dos séculos xvi e xvii (ou quando muito do repertório concertante do período joanino), no qual procuravam identificar um capital cultural identitário de um Portugal cuja essência histórica mais profunda viam como legitimista, católica ultramontana, rural, imune às influências externas e acima de tudo pré-moderna: pré-industrial, pré-capitalista, pré-liberal, pré-românica e pré-cosmopolita. Uma exposição teórica particularmente representativa desta tendência encontra-se em «A Música em Portugal nos Sécs.