Este Centro, estatutariamente vocacionado também para o tratamento de outros fundos bibliográficos musicais do país, carece, no entanto, dos recursos humanos e financeiros para poder actuar como organismo central da política musicológica do Estado, em particular no que respeita à problemática da inventariação e preservação do património histórico-musical português, em todos os seus aspectos. Continuam por tratar – ou mesmo em riscos graves de conservação – fundos musicais importantíssimos em todo o país, não existe um arquivo fonográfico nacional e a única entidade que assegura uma política regular de edição musicológica continua a ser uma instituição privada, a FCG. O Museu da Música, que em 1994 recebeu por fim, em instalações minimamente adequadas, o acervo organológico do CN, igualmente carece de infra-estruturas técnicas próprias para o estudo e o restauro das suas espécies, e a política de restauros de órgãos históricos prossegue a um ritmo entrecortado e insuficiente. A musicologia portuguesa adquiriu assim uma existência respeitável nos circuitos do ensino e da comunicação social, mas continua a não conseguir conquistar infra-estruturas elementares de suporte à investigação. Mais recentemente, graças aos programas de financiamento comunitário de I&D (Investigação & Desenvolvimento) promovidos em parceria entre o Estado português e a União Europeia, surgiram no contexto universitário os primeiros centros de investigação musicológica: o INET-Instituto de Etnomusicologia (fundado por S. Castelo-Branco) e o CESEM-Centro de Estudos de Sociologia e Estética Musicais (fundado por M. V. Carvalho), ambos na Universidade Nova de Lisboa, a que se juntou o Centro de História da Arte da Universidade de Évora (R. V. Nery e Manuel Morais). É no quadro da primeira destas instituições que se insere, nomeadamente, a edição da presente obra. A comunidade musicológica portuguesa realizou pela primeira vez em 1982 um Encontro Nacional de Musicologia, mas precisou de recorrer para isso aos auspícios institucionais da Associação Portuguesa de Educação Musical, só em 1991 se vindo a constituir, por iniciativa de G. Doderer, um fórum profissional musicológico, a Associação Portuguesa de Ciências Musicais, cuja actividade se tem centrado na organização ocasional de colóquios e na edição de um anuário, a Revista Portuguesa de Musicologia . Num meio profissional apesar de tudo ainda restrito, a investigação musicológica portuguesa tende, naturalmente, a concentrar-se nas áreas temáticas associadas aos seus protagonistas. Depois de um predomínio histórico dos estudos sobre polifonia dos séculos xvi e xvii, centrados na pesquisa biográfica e na edição moderna das obras dos nossos principais polifonistas, assiste-se actualmente a uma diversificação dos temas de investigação, mas também das metodologias utilizadas. Gerhard Doderer tem vindo a trabalhar de forma crescente sobre o género esquecido da cantata barroca e sobre os contextos institucionais da prática musical, sobretudo na época de D. João V; M. C. de Brito e L. Cymbron introduziram o estudo sistemático, numa óptica dos circuitos artísticos europeus, da produção operática em Portugal nos séculos xviii e xix, respectivamente; M. P.