Ferreira reabriu o estudo filológico da monodia medieval portuguesa, no âmbito do repertório trovadoresco galaico-português como no das filiações complexas das tradições de cantochão do nosso país; M. V. de Carvalho propõe uma leitura sociológica da música erudita portuguesa dos séculos xviii a xx em que se combinam referências tão distintas como as do marxismo-leninismo tradicional, de Adorno, de Bourdieu ou de Habermas; R. V. Nery adoptou para a música erudita do Antigo Regime modelos marcados simultaneamente pela história das ideologias e mentalidades de tradição francesa e pela etnomusicologia e a antropologia cultural norte-americanas. Uma nova geração de investigadores vai prosseguindo estas e outras vias de pesquisa, apesar das carências infra-estruturais graves já mencionadas, e insere-se cada vez mais numa rede musicológica internacional. Permanecem, porém, as graves lacunas de apoio bibliográfico especializado que continuam a tornar quase impossível a pesquisa em Portugal sobre temas da história da música europeia, sendo as raras excepções existentes, como as de M. P. Ferreira (liturgia musical de Cluny), Gabriela Cruz (Meyerbeer) ou Manuel Toscano (Gesualdo), o resultado de uma investigação levada a cabo sobretudo no estrangeiro, mesmo no que se refere ao acesso à bibliografia musicológica secundária. E continua por enraizar uma tradição de estudo musicológico do repertório do século xx, tanto o dos autores internacionais mais consagrados como o dos compositores portugueses, sendo esta área ainda quase exclusiva do mero ensaísmo jornalístico. Pouco mais de um século após o seu arranque no nosso país, a musicologia parece, pois, em alguns aspectos, sobretudo no plano do debate teórico e metodológico e no das estruturas de formação especializada, estar por fim a ultrapassar a fase dos esforços individuais isolados e aproximar-se globalmente dos padrões europeus da disciplina, ao mesmo tempo que se afirma já hoje como uma componente insubstituível da vida musical portuguesa e como um parceiro de fundo das ciências sociais e humanas em Portugal. Mas debate-se ainda com carências de base que só em parte lhe são próprias e que decorrem antes de mais das limitações gerais da vida música portuguesa, no seu conjunto, e do papel de menoridade que, em última análise, continua entre nós a ser reconhecida às artes e à cultura nos modelos vigentes de desenvolvimento nacional.