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Em estudo dedicado à Crónica dos Feitos da Guiné (1941), o professor de astronomia identifica, expõe e cita uma larga relação de omissões, erros e contradições. Uma das mais evidentes são as quatro datas diferentes para o início das tentativas de passagem do cabo Bojador; identificou os erros das distâncias indicadas na Crónica: das sessenta e duas mencionadas, somente sete são verificáveis, e mesmo nestas há erros de 22% a 58%, se comparadas com as mesmas distâncias insertas no Esmeraldo de Situ Orbis de Duarte Pacheco Pereira. No jornal O Diabo (Lisboa, Ano II, n.º 142, de 14 de março de 1937), referindo-se a Gomes Eanes de Zurara, defende: “Efetivamente a sua sabedoria livresca, muitas vezes de segunda mão, é de tomo limitado, e nula a geografia, que o Visconde [de Santarém] proclamou vasta”. O alcance deste exercício de crítica textual só se mede à luz da natureza do texto que Duarte Leite submetia a exame. Concluía que a Crónica dos Feitos da Guiné foi escrita por encomenda do próprio D. Afonso V e apoiou-se, em larga medida, nas recordações do infante D. Henrique sobre os seus próprios feitos, sendo ao mesmo tempo a fonte contemporânea mais completa sobre da época henriquina e um texto declaradamente laudatório. Ao isolar sistematicamente os seus erros e contradições, Duarte Leite não pretendia apenas emendar uma crónica: queria libertar a história dos Descobrimentos da sua fonte fundadora, obrigando a que cada afirmação sobre o Infante fosse verificada e não simplesmente herdada. Não é indiferente que esta posição tenha partido de um matemático, num período em que as próprias bases da matemática e da física estavam a ser postas em causa — a geometria não-euclidiana e a nova lógica a comprometer a evidência dos axiomas, a experiência de Michelson-Morley e as descobertas de Planck a minar a mecânica newtoniana. Duarte Leite não partilhava do relativismo dessas ciências, mas recusava, à semelhança destas, a herdar os fundamentos sem os pôr à prova. |
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