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A formação de matemático possibilitou a Duarte Leite uma interpretação própria acerca da origem da navegação astronómica. A questão fora colocada por Joaquim Bensaúde, que em “L'astronomie nautique au Portugal à l'époque des grandes découvertes” (1912)- demonstrara, contra a argumentação de Humboldt, que as tábuas náuticas portuguesas não derivavam das Ephemerides de Regiomontano, mas do Almanach perpetuum de Abraão Zacuto, traduzido do hebraico por Mestre José Vizinho e impresso em Leiria em 1496 — argumento apoiado na comparação das obliquidades da eclíptica adotadas em cada uma das “escolas” de cosmografia (ibérica e alemã). Reconhecia a Bensaúde o mérito de ter estabelecido a origem ibérica do “nosso saber náutico”. Estas matérias — instrumentos náuticos, regimentos do astrolábio e do quadrante, tábuas de declinação solar — eram partilhadas e discutidas com oficiais da Marinha que então renovavam a história da náutica, com relevância para o comandante Abel Fontoura da Costa (1869-1940), autor da Marinharia dos Descobrimentos (1933), e de Gago Coutinho que – através da sua experiência prática da navegação astronómica extraiu argumentos para a interpretação histórica - associaria a essa tradição de estudos náuticos ao professor portuense, salientando que “escrevia mais como homem do mar do que como homem da Academia”. Nesta renovação da história naval dos anos trinta, destaca-se de igual forma patente a obra de António Barbosa (1937-1939) e o Arquivo Histórico de Marinha (1933-1936), que, com um único volume publicado em quatro números, sob a direção de Raúl César Ferreira (1895?-1945) e secretariado de Frazão de Vasconcelos (1889-1970), visava divulgar documentação inédita para integrar os Descobrimentos no movimento do Renascimento. Contou com colaboradores como Fontoura da Costa, Gago Coutinho, Armando Cortesão e Jaime Cortesão. No estudo “Lendas na história da navegação astronómica em Portugal” ( Biblos , 1950), Duarte Leite realizou o balanço crítico desses contributos, separando o plano documental do mito henriquino. Para o autor, o método de cálculo da latitude pela altura solar, recorrendo ao astrolábio e às tábuas de declinação, só teve início a bordo com a intervenção de José Vizinho e de outros astrólogos, o que fixa o surgimento da navegação astronómica inequivocamente em 1485, no reinado de D. João II. |
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